Jovem brasileiro detido nos Estados Unidos continua em abrigo

Os dias têm sido de angústia para a família do adolescente Vitor Fraga. Nesta quarta-feira, faz uma semana desde que o menino de 15 anos, morador de Niterói, foi barrado pela imigração americana ao tentar entrar nos Estados Unidos para estudar em São Francisco, na Califórnia, com visto de turista. Matriculado em uma escola pública do país, foi impedido de prosseguir viagem, assim que chegou ao aeroporto de Houston, no Texas, onde faria conexão, por não apresentar o documento adequado. Sob a acusação de imigração ilegal, foi levado para um abrigo em Chicago, em Illinois, a 1,5 mil quilômetros do seu destino final, onde poderá permanecer por dias e até meses até ser liberado pelas autoridades americanas. De longe, a família acompanha tudo com o coração na mão.

Vitinho, como é conhecido pelos amigos, está em um quarto com três adolescentes refugiados do Senegal. Teve que entregar seus pertences, inclusive a roupa do corpo, e vestir uniforme. Tomou nove vacinas e precisa seguir regras rígidas: levanta cedo, arruma o quarto, estuda e faz três refeições por dia. Não pode sair do abrigo sem autorização, nem tem acesso à internet. Rotina já experimentada, só neste ano, por outros 37 adolescentes brasileiros, sendo que oito deles, além de Vitinho, ainda permanecem detidos, segundo dados do Itamaraty. O órgão disse que acompanha o caso desde quinta-feira passada e que já está em contato com as autoridades americanas para libertá-lo.

Hospedado em um hotel em Chicago, o pai de Vitinho, Renato Fraga, que trabalha com comércio exterior, viajou para os Estados Unidos assim que soube do problema com o filho. Ele contou ao GLOBO que tenta agilizar toda a documentação necessária para libertar o filho, comprovando que o garoto pode retornar ao Brasil porque tem família e condições financeiras.

– Apesar de achar um absurdo, preciso entender como as coisas funcionam aqui. Estou fazendo tudo o que eu posso – disse o pai, entre uma ligação e outra de parentes e amigos preocupados com a situação. – Estou mal, mas não tenho escolha. Sei que vão entender a situação dele e soltá-lo, mas até isso acontecer temos que seguir os ritos e as regras deles. Tudo isso serve de aprendizado. É uma lição de vida – completou Renato, que é casado e tem duas filhas, uma de 12 e outra de 3 anos.

Vitinho viajava com a avó e carregava uma autorização dos pais para viajar desacompanhado. A madrinha do adolescente, que mora nos Estados Unidos, foi quem matriculou o menino na escola. O pai nega que o filho tenha ido com a intenção de permanecer no país. Disse que iria somente passear e fazer algumas aulas de inglês. Mas uma pessoa próxima à família contou que o menino realmente tinha planos de ficar.

– Ele tinha intenção de ficar com a madrinha que mora lá. Foi com a avó, que iria ficar um mês com ele. Se achasse que era isso mesmo, poderia ficar para estudar na escola pública. Era uma forma de estudar inglês sem precisar pagar. A grande verdade é essa, mas nunca imaginamos que isso fosse acontecer – afirmou.

A assessoria da Embaixada dos Estados unidos no Brasil ressaltou que todas as pessoas que viajam ao país têm a responsabilidade de certificarem que estão viajando com o visto apropriado e que, mesmo assim, o documento não garante a entrada nos país. Há 27 categorias de vistos para não-imigrantes.

A expectativa do pai de Vitinho é que hoje seja realizada uma audiência para definir o futuro do menino. No entanto, não há garantias de que ele já será libertado. O processo poderá durar dias ou até meses, segundo Renato:

– Estamos tentando fazer de tudo para que o caso não precise passar pela Corte. Se tiver que passar, poderá demorar muito até marcar a audiência. Normalmente, são mais 20 dias. Meu apelo é que a imigração reconheça isso e devolva o Vitor. A gente não quer ficar nos Estados Unidos. Queremos voltar para o Brasil. Só isso – frisou.

Especialista em migração, a advogada Ingrid Baracchini explica que a procuração da avó de Vitor era apenas para levá-lo aos EUA. Sem ter a guarda dele, no entanto, ela não podia representá-lo legalmente diante da suspeita quanto à finalidade da viagem. Por ser menor de 21 anos – a maioridade imigratória -, Vitor foi posto em detenção, enquanto aguarda uma audiência perante um juiz imigratório, um advogado público e um tradutor.

– Lógico que essa audiência não acontece de um dia para o outro. Pode demorar. Nesse tempo, a família pode contratar um advogado particular. O adolescente passa pela Corte e, se deportado, escolhe se paga a viagem de volta ou fica esperando uma vaga num voo de volta – explica Ingrid.

Ela lembra ainda que, nos EUA, não há escola pública gratuita para estrangeiros. Caso Vitor quisesse estudar no país, teria que se matricular num colégio vinculado ao governo, que emitiria um documento (chamado I-20) para ser apresentado ao consulado americano. Com essa confirmação em mãos, ele pediria um visto de estudante. E teria de comprovar, por exemplo, se tinha recebido uma bolsa ou se tinha condições financeiras para pagar a escola.

– Sem esse procedimento, se ele conseguisse entrar no país, estudaria, porque os EUA têm uma política de escola para todos. Mas é uma atitude ilegal – afirma a advogada.

A exceção, diz Ingrid, é para cursos de curta duração, de até três semanas, sem certificados. Nessas situações, é possível entrar no país com o visto de turista, ainda assim, diante da apresentação de uma carta da escola ou curso em que o estrangeiro está matriculado. Mesmo se esse fosse o caso de Vitor, no entanto, a especialista diz que os agentes americanos desconfiariam.

– Ele está em idade escolar, em período letivo. É estranho tirar um adolescente da escola para estudar um mês fora. Ele teria que ir nas férias, em dezembro, janeiro ou julho – diz.

As histórias de jovens brasileiros retidos em viagens aos Estados Unidos se repetem. Em abril do ano passado, Anna Beatriz Theophilo Dutra, do Tocantins, passou 15 dias no abrigo, quando chegava ao país para comemorar o aniversário de 18 anos com uma amiga, em Boston. Após terminar o Ensino Médio e antes de começar a universidade, ganhou de presente dos pais viagens para aperfeiçoar idiomas e visitar outros países. Ela foi barrada no aeroporto de Detroit (Michigan) e levada para Chicago, onde chegou a ficar num quarto com oito meninas, a maioria latino-americanas. A jovem só pôde voltar para casa depois de a família reunir toda a documentação exigida pelos EUA, acompanhada da mãe.

Em agosto, outra adolescente, Anna Stéfane Radeck, de 16 anos, viveu um drama parecido, numa viagem a turismo para Orlando, na Flórida. Também barrada ao desembarcar numa conexão em Detroit, ela ficou 20 dias no abrigo, e voltou para casa traumatizada, contando relatos de uma sequência de vacinas e ameaças psicológicas.

16/08/2017

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